O tradicional VDSL, base das conexões de cobre na Alemanha, já tem data para sair de cena. A estimativa é do executivo Soeren Wendler, que assumiu o comando da operadora M-net em 1.º de janeiro de 2026.
Em conversa com a imprensa, Wendler detalhou como pretende migrar clientes, ampliar a rede de fibra óptica e lidar com a concorrência em grandes centros urbanos, apostando em parcerias e em pacotes que chegam a 5 Gbit/s.
Carreira de três décadas chega ao topo da M-net
Wendler soma cerca de 30 anos no mercado alemão de telecom. Antes de desembarcar em Munique, foi cofundador da Deutsche GigaNetz e passou onze anos em cargos de liderança na 1&1 Versatel.
Na M-net, o executivo responde por marketing, vendas, atendimento, estratégia, finanças, RH, jurídico e regulação. O histórico, segundo ele, facilita evitar erros comuns na implantação de redes de fibra e, principalmente, na tarefa de convencer o consumidor a migrar do cobre para a nova infraestrutura.
Modelo de negócios focado em longo prazo
Diferente de empresas financiadas por fundos de private equity, a M-net tem como principais acionistas as companhias municipais de energia de Munique, Augsburg e Kempten. O objetivo é construir e manter a infraestrutura, não vendê-la depois.
Para Wendler, essa visão mais conservadora garante investimentos contínuos e estabilidade operacional, algo essencial para projetos de fibra que levam anos até se pagarem.
Ritmo de expansão na cidade e no campo
O CEO aponta contrastes claros entre áreas rurais e urbanas. No interior, o custo de obra é alto, porém a demanda por banda larga gigabit costuma ser imediata porque a população sofre com velocidades baixas há anos.
Já nas metrópoles, o desafio é obter licenças e coordenar escavações com os órgãos municipais sem travar o trânsito. Em compensação, a densidade populacional reduz o investimento por domicílio.
Comunicação precisa ser local
Nas cidades grandes há sobrecarga de publicidade. Para se destacar, a M-net investe em patrocínio cultural e mantém sete lojas físicas em Munique, estratégia que Wendler chama de “maratona” para conquistar confiança.
Segundo ele, muitos consumidores ainda preferem resolver problemas pessoalmente em vez de usar chatbots ou centrais terceirizadas.
Cooperação com a Telekom triplica ofertas ao cliente
Firmado em setembro do ano passado, o acordo com a Deutsche Telekom permite que a rival use fibras passivas da M-net em Munique. O projeto estreou já em janeiro deste ano com 50 mil apartamentos atendidos.
Os imóveis recebem uma tomada dupla: uma fibra ligada à M-net e outra à Telekom. Até o momento, os pedidos de instalação estão repartidos quase meio a meio. A cada ano, outras 100 mil unidades devem entrar na cobertura compartilhada.
Vantagens para ambas as operadoras
Enquanto a Telekom agrega rede sem novos canteiros de obra, a M-net amplia a ocupação de suas fibras e reforça a imagem de empresa aberta. “Open Access preenche a rede”, resume Wendler.
Imagem: Divulgação
Mix tecnológico caminha para a unificação
O acervo da M-net inclui FTTB, G.fast, AON, GPON e XGS-PON. A diversidade é fruto de 30 anos de evolução, começando no DSL de 16 Mbit/s, que gerava mais de 100 milhões de euros de receita há apenas uma década.
A última central de DSL puro deve ser desligada ainda neste ano. O passo seguinte será aposentar o VDSL/FTTC até 2036, migrando todos os clientes para FTTH.
G.fast como etapa intermediária
Em prédios onde a fibra ainda não sobe dos porões para os apartamentos, a operadora utiliza G.fast. A tecnologia entrega até 1 Gbit/s sobre o cabeamento existente, servindo como ponte até a conclusão do FTTH completo.
Tarifas de 250 Mbit/s a 5 Gbit/s
O plano mais popular da M-net hoje é o de 500 Mbit/s. Entretanto, o portfólio inclui 250 Mbit/s, 1 Gbit/s, 2 Gbit/s e o “cartão-de-visita” de 5 Gbit/s.
O pacote de 5 Gbit/s tem preço elevado e pouca procura, mas funciona como vitrine. A existência dele impulsiona as assinaturas dos planos de 1 Gbit/s e 2 Gbit/s, observa o executivo.
Quanto custaria no Brasil?
Convertendo a tarifa alemã de 5 Gbit/s, que fica em torno de 199 euros por mês, o valor chegaria a aproximadamente R$ 1.150. Para efeito de comparação, planos residenciais de 1 Gbit/s no Brasil hoje variam de R$ 150 a R$ 350, dependendo da cidade e da operadora.
Fator confiança impulsiona adesão à fibra
Apesar de o setor apontar procura abaixo do esperado pela fibra óptica, Wendler afirma que a M-net avança graças ao vínculo regional. “As pessoas não querem saber a diferença entre VDSL, DOCSIS ou GPON. Elas querem internet estável de um parceiro confiável”, diz.
Esse discurso, aliado às lojas físicas, tem surtido efeito, especialmente entre consumidores mais velhos, público que prefere atendimento presencial em vez de contatos remotos.
Consequências para o legado de cobre
À medida que a adesão ao FTTH aumenta, o número de linhas em VDSL cai. Manter a infraestrutura de cobre mal utilizada pode se tornar inviável financeiramente, reforçando a projeção de que o VDSL estará extinto dentro de dez anos.
Para o Mania de Celular, a fala do CEO mostra como decisões de longo prazo e parcerias estratégicas definem a velocidade da transição para a fibra, um movimento que deve se repetir em outros mercados mundo afora.
